Como a China usa pandas e 'guerra de zona cinzenta' para aumentar pressão sobre o Japão

  • 21/02/2026
(Foto: Reprodução)
Pequim aumentou a pressão sobre o Japão nos últimos meses Getty Images/via BBC No mês passado, milhares de japoneses se despediram em lágrimas dos ursos panda Xiao Xiao e Lei Lei, no Zoológico Ueno, em Tóquio, antes que eles seguissem de avião de volta para a China. Sua partida deixou o Japão sem pandas chineses pela primeira vez em décadas e se tornou um dos símbolos da recente deterioração das relações entre os dois países. Os recentes comentários da primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, levaram as relações do seu país com a China para o nível mais baixo em anos, fazendo com que Pequim aumentasse suas pressões sobre Tóquio em diversos setores. A China enviou navios de guerra, restringiu as exportações de terras raras, freou o turismo chinês ao país, cancelou shows e, por fim, trouxe de volta seus pandas que estavam no Japão. Takaichi inicia, agora, um novo mandato como primeira-ministra, depois do apoio histórico que ela recebeu nas recentes eleições antecipadas. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Com isso, analistas alertam que a China e o Japão enfrentarão dificuldades para reduzir as tensões e que as relações bilaterais não irão se recuperar no futuro próximo. As disputas começaram em novembro, quando Takaichi aparentemente sugeriu que o Japão ativaria suas forças de autodefesa, no caso de um ataque a Taiwan. A China considera a ilha autogovernada de Taiwan uma província rebelde e não descarta o uso da força para "reunificá-la", algum dia. Taiwan possui um governo independente há décadas e conta com os Estados Unidos como aliado fundamental. Washington se comprometeu a ajudar a ilha a se defender. Em janeiro, milhares de pessoas fizeram fila no Zoológico Ueno, no Japão, para se despedir dos pandas Lei Lei (foto) e Xiao Xiao, que seguiram de volta para a China em consequência do aumento das tensões entre os dois países Soichiro Koriyama/EPA/Shutterstock A preocupação, há muito tempo, é que um eventual ataque a Taiwan possa resultar em um conflito militar direto entre os Estados Unidos e a China e se estender para outros aliados americanos na região, como o Japão e as Filipinas. A questão de Taiwan é uma linha vermelha fundamental para a China. Pequim reage furiosamente a qualquer comentário percebido como "ingerência externa" e insiste que esta é uma questão de soberania, que apenas a China, sozinha, pode decidir. Quase imediatamente após as declarações de Takaichi, Pequim respondeu com uma onda de condenações e exigiu sua retratação. Os observadores destacaram que os comentários de Takaichi estavam de acordo com a postura do governo japonês e repetiam o que outros líderes do país já haviam declarado no passado. A diferença é que esta foi a primeira vez em que um primeiro-ministro japonês no cargo expressava esta opinião. Por outro lado, Takaichi se recusou a pedir desculpas ou se retratar por seus comentários. Analistas indicam que esta postura provavelmente seja justificada pelo sólido respaldo eleitoral obtido por ela. Takaichi afirmou que passaria a ser mais cautelosa ao comentar sobre cenários específicos. E seu governo enviou diplomatas de alta patente para se reunir com seus homólogos chineses. Mas estas medidas não ajudaram a acalmar a ira chinesa. A 'guerra de zona cinzenta' Os comentários da primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, sobre Taiwan causaram forte reação de Pequim Getty Images/via BBC Frente à firme negativa de Takaichi, a China aumentou suas pressões sobre o Japão de forma constante. Houve outras disputas entre os dois países nas últimas décadas, alimentadas pela sua histórica animosidade. Mas, desta vez, a situação é diferente, segundo os analistas. A China aumentou sua pressão em "muito mais frentes", segundo Robert Ward, presidente de assuntos japoneses do centro de estudos Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. Para ele, trata-se de uma pressão difusa e de baixo nível, similar à "guerra de zona cinzenta" travada contra Taiwan. Seu objetivo seria "desgastar o oponente para normalizar coisas que, na verdade, não são normais". No campo diplomático, Pequim apresentou queixas às Nações Unidas e postergou uma reunião de cúpula trilateral que ocorreria entre a China, o Japão e a Coreia do Sul. A China também tentou envolver outras partes na contenda. Pequim pediu a adesão do Reino Unido e da França e, paralelamente, convoca seus aliados Rússia e Coreia do Norte para denunciar o Japão. No fim de semana de 14-15 de fevereiro, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, invocou o histórico de agressões do Japão durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) ao se dirigir aos líderes ocidentais, durante a Conferência de Segurança de Munique, na Alemanha. Ele qualificou as declarações de Takaichi como um "avanço muito perigoso". No âmbito militar, o Japão declarou que a China enviou drones e navios de guerra para perto das suas ilhas e que seus caças de combate fixaram os radares em aviões japoneses. Além disso, navios da guarda costeira dos dois países se confrontaram perto das disputadas ilhas Senkaku/Diaoyu. E, na semana anterior, as autoridades japonesas apreenderam um navio de pesca chinês. Mas o que está claro é que a China também quer atingir o Japão em um ponto vulnerável: a economia. Medidas econômicas Pequim impôs restrições às exportações para o Japão de tecnologias de uso duplo, que podem ser empregadas com fins civis e militares. Elas incluem terras raras e minerais críticos. A medida foi considerada uma forma de coerção econômica. A China também alertou aos seus cidadãos que evitem o Japão para seus estudos e férias. Foram cancelados voos em 49 rotas para o Japão, provocando redução do turismo e queda do valor de certas ações do setor de turismo e varejo. Os cidadãos chineses representam 25% de todos os turistas estrangeiros que visitam o Japão, segundo números oficiais. Nem mesmo o entretenimento e a cultura escaparam da crise diplomática. Eventos musicais japoneses na China foram cancelados. Em um deles, uma cantora foi retirada às pressas do palco no meio da apresentação. As distribuidoras cinematográficas também postergaram a estreia de diversos filmes japoneses na China. A própria franquia Pokémon, um dos fenômenos culturais japoneses mais famosos no exterior, também foi objeto de críticas em relação a um evento de jogos de cartas que deveria ter ocorrido em janeiro, no santuário Yasukuni, em Tóquio. O templo homenageia os japoneses mortos em campos de batalha, incluindo alguns que a China considera criminosos de guerra. O evento acabou sendo cancelado. Nas redes sociais, nacionalistas chineses lançaram ataques online contra Takaichi. Eles incluíram a divulgação de vídeos gerados por inteligência artificial, mostrando a figura da cultura pop Ultraman e o personagem de anime Detetive Conan, lutando contra a primeira-ministra. Mas, de forma geral, a China tomou desta vez medidas menos provocadoras, em comparação com conflitos anteriores com o Japão, segundo Bonny Lin e Kristi Govella, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês). "Até o momento, sua reação econômica e militar foi relativamente limitada em comparação com o passado", declararam eles em uma análise recente, "mas existe ampla margem para uma escalada maior." A China também pode estar se abstendo de adotar uma postura dura demais com o Japão. Afinal, Pequim está se "posicionando ativamente como o guardião da ordem pós-Segunda Guerra Mundial". A China quer ser vista como uma potência responsável em comparação com os Estados Unidos, segundo Ward. Alta tensão Os observadores concordam que, se as tensões se acalmarem, provavelmente elas se estabilizarão em um nível mais alto do que antes. É menos provável que as duas partes reduzam as tensões desta vez, segundo Lin e Govella na sua análise. A China, agora, é uma potência muito mais forte e "Taiwan é o centro dos interesses chineses, o que significa que é mais provável que Pequim adote uma postura linha-dura do que em episódios anteriores". Lin e Govella também afirmam que "Pequim desconfia profundamente de Takaichi e é provável que considere hipocrisia suas tentativas de reduzir as tensões, sem se retratar explicitamente dos seus comentários — ou, ainda pior, como algo estrategicamente falacioso". Paralelamente, o Japão detém maior interesse em se manter firme, especialmente após a contundente vitória eleitoral de Takaichi, que "ela interpretará como reafirmação da sua postura em relação à China", segundo Ward. Govella declarou à BBC que Takaichi provavelmente usaria sua vitória como "capital político" para promover políticas econômicas e de defesa que irão fortalecer a posição japonesa. Takaichi se comprometeu a aumentar os gastos de defesa do Japão para 2% do PIB dois anos antes do previsto, completar uma revisão das principais estratégias de segurança até o final deste ano e lançar em breve um pacote de estímulo à economia do país. Por sua vez, a China "considera que Takaichi é uma líder bastante forte e que a campanha de pressão poderá simplesmente fortalecê-la em nível nacional. Por isso, é possível que eles não intensifiquem muito suas pressões", segundo Kiyoteru Tsutsui, especialista em Japão e diretor do Centro de Pesquisa Shorenstein Ásia-Pacífico da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. "De forma que esta música, provavelmente, continuará tocando por algum tempo", prevê ele. A influência de Trump Um fator imponderável poderá ser o forte apoio a Takaichi dedicado, até aqui, pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele chegou a declarar seu respaldo, o que é incomum, nos momentos que antecederam as eleições antecipadas no Japão. Mas muitos esperam que as relações entre os Estados Unidos e a China se intensifiquem ainda mais este ano, segundo Tsutsui. Estão programadas diversas reuniões entre Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, incluindo a visita de Estado do presidente americano a Pequim, no mês de abril. E, em comparação com incidentes anteriores, a reação dos Estados Unidos ao último enfrentamento "até agora, foi moderada, o que pode fortalecer a China", segundo Lin e Govella. "Os japoneses receiam que Xi e Trump cheguem a um grande acordo", afirma Ward. No fim de semana de 14-15/2, os Estados Unidos e o Japão reafirmaram suas relações durante a Conferência de Segurança de Munique, em reunião entre o secretário de Estado americano, Marco Rubio, e o ministro das Relações Exteriores do Japão, Toshimitsu Motegi. Takaichi também espera se reunir novamente com Trump em março, durante sua visita a Washington, antes da viagem do presidente americano à China. Enquanto Pequim segue aumentando suas pressões, Tóquio provavelmente irá "redobrar" seus esforços para assumir uma parte maior dos gastos de defesa compartilhados com Washington e "realmente irá trabalhar de forma mais estreita com eles para garantir que os Estados Unidos não se afastem e percam o interesse pela região", segundo Ward. Vídeos Veja vídeo de dezembro de 2025 sobre a tensão entre China e Japão: Ministro chinês afirma que Japão está ameaçando China militarmente

FONTE: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/02/21/como-a-china-usa-pandas-e-guerra-de-zona-cinzenta-para-aumentar-pressao-sobre-o-japao.ghtml


#Share

Applications


Speaker on Air

Request Music

Top 5

top1
1. ENÈJI NOU SANBLE

Dener Ceide / Zafem

top2
2. MEA CULPA

Arly Larivière / Nu Look

top3
3. DLO DOUS

Dener Ceide / Zafem

top4
4. OU PA VLE

Michel Guirand / Vayb FT Baky

top5
5. SE OU L YE

Trouble Boy FT Anie Arlete

Advertisers